Casa do Poço
A partir de 2026, a Casa do Poço afirma-se como um espaço de cultura, conhecimento e criação, orientado para a valorização do património material e imaterial de Valença, em diálogo permanente com a Galiza. A programação organiza-se como um território aberto, onde diferentes práticas e linguagens se cruzam. Exposições, ciclos de debate, projeções, residências artísticas, momentos de convívio e apresentações públicas constroem um espaço vivo, atento ao presente e às suas urgências. Mais do que um lugar de apresentação, a Casa do Poço propõe-se como um lugar de passagem — de ideias, de pessoas, de experiências. Embora de natureza privada, está plenamente aberta ao público, com especial atenção às gerações mais jovens.
O Edifício
A Casa do Poço é um dos edifícios mais antigos da Praça Forte de Valença. Debruçada sobre a fronteira e o rio Minho, a sua existência encontra-se documentada desde o século XVI — uma casa erguida no alto, com a ponte aos seus pés. O edifício atual terá sido provavelmente construído no século XVII e reconstruído no final do século XIX, adquirindo a configuração que ainda hoje conserva. Ao longo dos séculos, acolheu diferentes usos e funções, alternando entre o privado e o público, acompanhando as transformações da cidade.
Do ponto de vista material, destaca-se a proximidade à capela quinhentista das Carlas, adossada à Igreja de Santa Maria dos Anjos, de matriz românica tardia. No seu interior subsistem pinturas murais do século XVI, onde se representa um Calvário, com Nicodemos e José de Arimateia em posição inferior, e, lateralmente, São Gregório e uma outra figura. Este conjunto patrimonial inscreve a Casa do Poço numa continuidade histórica onde arquitetura, arte e território se entrelaçam.
Fronteiras e as Trapicheiras
Valença é, por natureza, um lugar de fronteira — mas também de encontro. A relação com a Galiza construiu-se ao longo de séculos através de fluxos contínuos de pessoas, bens e histórias. Entre essas figuras de passagem, destacam-se as trapicheiras: mulheres que atravessavam o rio Minho transportando mercadorias, muitas vezes de forma clandestina, desafiando os limites impostos pela fronteira. A sua presença inscreve-se numa memória coletiva feita de resistência, engenho e sobrevivência.
Hoje, continuam a passar peregrinos e viajantes, atravessando a ponte em direção ao outro lado. A Casa do Poço reconhece-se nessa condição de lugar atravessado — um ponto onde o passado permanece ativo e onde o presente se constrói a partir dessas camadas. Entre margens, entre tempos, entre práticas, a Casa do Poço afirma-se como um espaço onde diferentes trajetórias se encontram e se transformam.